Jargonafasia: Braulio Gonçalves

Braulio Gonçalves nasceu em 1919. Filho único, gostava muito de futebol, mas sua mãe, preocupada com o futuro do filho, ocupava seu tempo com a escola e com aulas de piano. Braulio chegou a participar do coral da igreja só para fazer parte do time que jogava no campo da igreja. Foi escoteiro e trabalhou na Revolução Constitucionalista de 1932. Conheceu sua esposa e primeira namorada aos 15 anos. Entrou para a Faculdade de Medicina, mas como tinha planos de se casar, desistiu do curso e foi trabalhar no serviço público. Teve um casal de filhos, vários netos e bisnetos.

Braulio sofreu um AVC em novembro de 2008, aos 89 anos. O exame de Ressonância Magnética mostrou um “infarto isquêmico têmporo-parieto-occipital e na ínsula esquerdos”. Braulio se tornou afásico, apresentando muita dificuldade para se expressar, mas sem qualquer sequela motora.

Sua fala era bastante fluente. No entanto, usava palavras que, apesar de existentes na língua, nem sempre tinham relação de sentido com a proposição que queria enunciar. Também produzia uma série de fonemas que não compunham palavras ou expressões da língua, porém mantendo uma prosódia adequada ao que queria falar. A alteração de linguagem de Braulio é conhecida como JARGONAFASIA. Às vezes, o jargonafásico não percebe que está produzindo uma fala que seu interlocutor não entende e, portanto, não produz nenhuma autocorreção para melhorar sua fala. Braulio, às vezes, percebia, pela reação de seu interlocutor (geralmente pela expressão facial), que não estava sendo compreendido. Geralmente dizia: Não? (como se dissesse: você não entendeu o que eu falei, né?). O que acontecia na fala (na produção oral), acontecia também na escrita, como no exemplo abaixo, ao tentar escrever ou copiar o nome de sua mãe EMERITA ou dos times de futebol SÃO PAULO e OESTE:

Apesar da jargonafasia, em algumas situações de interação, Braulio produzia enunciados completamente inteligíveis:

  • Braulio torcia para o São Paulo Futebol Clube. Falando sobre a loja de seu time no Morumbi: “Ah… vale a pena” (ir à loja do Morumbi) e “A Odete foi também” (sua esposa foi com ele à loja).
  • Falando sobre a Revolução de 32 e os tempos de estudante e de escoteiro, produziu o lema dos escoteiros: “Escoteiro sempre alerta”.
  • Comentando um desenho que fizera de seu quarto: “Tá mais ou menos”.

Veja a seguir duas situações entre o senhor Braulio e a fonoaudióloga AT: na primeira, era seu aniversário e Braulio canta “Parabéns a você”; e na segunda, Braulio e AT interagem conversando sobre um primo dele que estava internado em um hospital de São Paulo, com um problema na perna. Braulio quer contar a AT em qual hospital seu primo está internado.


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