Confabulação: A história de Sergio Toscano

Eu conheci Sergio Toscano no hospital, em novembro de 1996. Vestindo um roupão de seda azul, estava sentado na poltrona de seu quarto, pernas cruzadas, mão direita apoiando a cabeça, óculos de aros finos, numa atitude elegante que marcaria todos os nossos outros encontros. Seu irmão, GT, estava sentado na cama hospitalar. A porta do quarto estava aberta. Fui me aproximando, entrei, me apresentei. Sergio levantou-se imediatamente, me cumprimentou – “Piacere” – e insistiu para que eu me sentasse na poltrona (apontava a poltrona e dizia “per favore”). Ficou perplexo diante da minha recusa e da conivência do irmão, ao permitir que eu, uma mulher, me sentasse numa banqueta e ele, um cavalheiro, se instalasse na poltrona. Nossa atitude causou um estranhamento perturbador em Sergio. Ele, então, me recebia não como um doente, um paciente, alguém que precisasse do atendimento de uma fonoaudióloga. Agia como o presidente da multinacional em um encontro de negócios em seu escritório.

Sergio é natural da Itália, de uma pequena cidade da Toscana. Tinha 60 anos de idade quando se tornou afásico. Trabalhava em uma empresa multinacional exercendo o cargo de presidente, o que o possibilitou viver em diferentes países, numa diversidade de línguas e culturas. Vivia em São Paulo havia 2 anos. Tinha uma filha, jornalista, que vivia na França com a mãe, ex-mulher de Sergio. GT, seu único irmão, estava com 61 anos e morava na Itália com a esposa Gabriela e a filha Veronica.

Em outubro de 1996, Sergio estava em seu escritório e sentiu forte dor de cabeça. Inconsciente, foi levado ao hospital. Sergio sofreu ruptura de aneurisma (o aneurisma é uma dilatação anormal na parede de uma artéria do cérebro) localizado na artéria comunicante anterior, com hemorragia meníngea durante cirurgia para clipagem do aneurisma (que é um procedimento para fechar a artéria), seguido de um vaso espasmo (estreitamento ou contração da parede da artéria que leva à isquemia cerebral). Permaneceu 15 dias em coma.

Dados de tomografias de 7 e 14 de novembro revelavam craniotomia fronto-temporal esquerda, clip metálico na topografia da comunicante anterior. Pequena área hiperdensa ocupando a região frontal bilateralmente. Sistema ventricular de forma, contornos e dimensões normais.

Poliglota, Sergio falava fluentemente o italiano e o dialeto de sua região natal, e ainda o espanhol, o português, o francês e o alemão.

Ao sair do coma, o mutismo marcava profundamente sua volta ao mundo. Pouco a pouco, algumas palavras em francês. Depois, o italiano veio tomando espaço e, por ocasião de nosso primeiro encontro, Sergio se comunicava predominantemente em italiano, numa espécie de jargão verborrágico, marcado por palavras existentes na língua italiana e por palavras inventadas – conhecidas como NEOLOGISMOS – também em italiano, e que, na maioria das vezes, não faziam o menor sentido nos contextos em que eram usadas.

O irmão de Sergio, GT, o acompanhava diariamente em sua recuperação. Chegava ao hospital às 9 horas e saía às 18 horas. GT não conseguia reconhecer seu irmão naquele doente que se movimentava, andava, “lia” os jornais do dia, fazia a barba, “falava” ao telefone, e que, no entanto, só dizia coisas sem nexo: tutti sbagliati. Sua atitude diante da afasia de Sergio era de incentivá-lo a falar, dando livre vazão à verborragia sem sentido (melhor falar qualquer coisa do que não falar nada) e fingindo entender a fala de Sergio.

Muitas vezes observei Sergio se dirigindo ao posto de enfermagem, talvez solicitando alguma informação ou fazendo algum comentário (era impossível apreender o sentido das palavras e dos neologismos). Uma ocasião, nesse tipo de situação, Sergio falava com a enfermeira em italiano. Diante da enfermeira que afirmava “eu não entendo o que o senhor está falando, eu não falo italiano”, Sergio mudou o registro e passou a falar francês.

Sem qualquer sequela motora, a única marca concreta dessa nova situação de Sergio era sua cicatriz no lado esquerdo da cabeça. Segundo o enfermeiro, ele ficava alguns minutos frente ao espelho, todas as manhãs, levando a mão à cabeça, observando a cicatriz que parecia não fazer o menor sentido.

Minha primeira orientação ao irmão de Sergio: Se você não o entender, mostre a Sergio. Ele precisa perceber e compreender que você não entendeu o que ele quer dizer. E, ao mesmo tempo, você deve tentar buscar ou reinterpretar o sentido daquilo que seu irmão diz, para além das próprias palavras. Buscar um sentido onde parece não haver nenhum”.

Mas, para GT (e, talvez, para a maioria das pessoas diante desse estranhamento que a falta de sentido produz), isso era extremamente difícil. Ele tentava ser didático, repetindo as palavras, e, como um professor, ensinava a Sergio o conteúdo de sua vida, dando aulas sobre sua biografia: “Lembra-se, você nasceu na Itália… Lembra-se, nossa mãe se chama…”.

Era evidente que Sergio não se percebia como alguém que havia feito uma cirurgia, que havia ficado em coma, que estava internado em um hospital, e cuja fala não era compreendida por ninguém, nem mesmo por seu irmão, falante do italiano. Este não reconhecimento da própria dificuldade se chama ANOSOGNOSIA.

Sergio, no entanto, percebia que sua fala causava um estranhamento nas pessoas, porém, não compreendia o porquê da reação das pessoas diante de sua fala. Com a enfermeira que não falava italiano, ele usava o francês. Mas o que fazer diante de seu irmão, que só falava italiano, ou diante da fonoaudióloga que falava italiano e francês? Quando seu irmão passou a mostrar claramente que não estava entendendo nada do que Sergio dizia, ele nos perguntava – Perche? – como se dissesse por que vocês não entendem o que eu falo?.

Em todos os momentos Sergio agia como se estivesse em seu escritório: sua postura, sua entonação de voz, sua prosódia, o uso de um vocabulário sofisticado, de expressões do tipo supondo-se que, evidentemente, efetivamente, considerando-se que, revelavam o empresário, o presidente da multinacional.

Sergio, durante conversas com seu irmão ou com a fonoaudióloga, produzia algumas informações ou comentários que nem sempre eram congruentes com sua história de vida, como se fossem informações falsas, que seu irmão considerava inventadas ou erradas. Esta alteração de linguagem é conhecida como CONFABULAÇÃO.

Na perspectiva sociocognitiva aqui adotada, a confabulação nas afasias é considerada não como o lugar da invenção ou da mentira – produção de falsa informação sem a intenção de iludir – mas como texto constituído de elementos pragmático-discursivos e cognitivos mobilizados pelo afásico na situação de interlocução. A confabulação, tomada como processo de construção do sentido, como configuração textual própria à interlocução, como lugar de imbricação entre atos de linguagem e atos sociocognitivos, interacionais (Morato, EM. A Semiologia das Afasias, 2010:109), põe em questão linguagem, cérebro e cognição, ressaltando a importância radical da linguagem e da interação na constituição da cognição humana.

A seguir apresentaremos exemplos da fala de Sergio ao interagir com seu irmão GT e com a fonoaudióloga AT. Os 3 episódios estão transcritos, pois os registros originais estão apenas em áudio (não em vídeo) e foram traduzidos do italiano para facilitar a compreensão de exemplos de confabulação na fala afásica de Sergio (o texto sublinhado em português indica que a fala original foi em italiano). Os neologismos (em negrito), no entanto, foram mantidos em italiano. O Sistema de Notação usado na transcrição está descrito no quadro abaixo:

NOMES e INICIAIS em MAIÚSCULA     Indica fala (produção oral)
nomes e inicias em minúscula Indica gestos, olhar, mímica facial, apontamentos, etc.
Texto sublinhado em Português Fala original em Italiano
NEGRITO NEOLOGISMOS
* início e fim do gesto * Descrição do gesto, olhar, mímica facial, etc.
Pausa de entonação
[ Sobreposição de vozes (fala)
/ Truncamento ou interrupção brusca da fala
/SI/ Segmento de fala não inteligível
MAIÚSCULAS Ênfase / Aumento do volume de voz

 
EPISÓDIO I: SEGUNDA-FEIRA

Pergunto a Sergio qual o dia da semana. Era uma segunda-feira e ele havia deixado o hospital naquela manhã, após dois meses de internação. Ele olha suas roupas, esportivas, e conclui que só pode ser domingo, uma vez que nos outros dias da semana, incluindo os sábados, ele sempre veste paletó e gravata.

AT : Sergio... que dia é hoje?
SERGIO : *Hoje é domingo* se eu [não me engano bem
sergio : *olha para sua camisa* 
GT :                                                      [Não
AT : Não... não é domingo... ontem foi domingo... hoje é...
SERGIO : Hoje não pode ainda ser domingo...
AT : Ontem era domingo... *hoje é*...
at : *olha para GT*
GT : Segunda
AT : Segunda. E que dia do mês? Você se lembra... que dia?
SERGIO : Hoje é segunda me parece... desculpe-me é muito tarde... porque segunda é como depois do domingo
AT : Sim...
SERGIO : Parece fácil... concluímos facilmente segunda quando você /SI/
AT : Hoje é dezesseis de dezembro...
SERGIO : Sim... mas eu não participava... acredito que são... são problemas... 

EPISÓDIO II: FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É

Estávamos falando da sobrinha de Sergio, Veronica, que é advogada. Eu pergunto sobre sua cunhada, Gabriela, mãe de Veronica e esposa de seu irmão GT. Sergio dá a entender que sua cunhada é também advogada, o que é negado por GT que afirma “tudo inventado, tudo inventado”.

AT : E Gabriela... quem é? 
SERGIO : Gabriela é a mãe que deveria estar ocupando/
AT : A mãe de Veronica? 
SERGIO : Sim 
AT : Sim... que faz/
SERGIO : A reorganização sistemática do documento interno ao trabalho e isto de um modo específico
AT : Mas Gabriela também é advogada?
SERGIO : 
A ... a ... a advogada sim ... ela também era advogada
AT : Gabriela?
GT : *GABRIELA ?!*
gt  : *com entonação de voz indicando surpresa e negação*
SERGIO : 
Sim... Também era escritora *deste novo escopo de italianos que pareciam já ter levado um mês ou dois meses e era considerado muito muito muito curto*
gt : *faz movimentos de negação com a cabeça*
AT : *Não* ?
at : *olha para GT*
GT : Tudo tudo tudo inventado porque Veronica... quer dizer... Gabriela... de verdade  não faz nada
AT : *Ela não trabalha?*
 at : *olha para GT*
GT : Não trabalha... só cuida da casa... Não trabalha... não não não tem documentos *não é advogada *... [ela não trabalha...
gt : *rindo*
SERGIO:                                                                                                                                                                              [Por que?
Por que?
AT : É assim... né?
GT : Ela cozinha muito bem... tem suas atividades... a sua ginástica... pratica esportes... faz suas [coisas...
SERGIO :                                                                                                                                                            [Mas por que? Ela tem um /SI/

AT : Eu te perguntei qual era o trabalho da Gabriela e sua resposta... os documentos... advogada... tem uma confusão aí e GT falou “não... a Gabriela não faz nada... ela cuida da casa... não trabalha”
GT : Gabriela cozinha muito bem... se lembra? Faz cada comida boa...
SERGIO : Sim... é única... única

EPISÓDIO III: BERTRAND RUSSELL

A fonoaudióloga AT conversa com Sergio a respeito de seu trabalho como fonoaudióloga e questiona se ele sabe por que ela está ali.

Da mesma maneira como Sergio não se percebe como alguém que foi submetido a uma cirurgia, que ficou dois meses internado em um hospital, ele também não percebe seus problemas de linguagem. Neste contexto, a presença de uma fonoaudióloga (ou de qualquer outro profissional da saúde) não faz nenhum sentido. Sergio é ANOSOGNÓSICO em relação a sua afasia. Ele não se reconhece como afásico.

A fonoaudióloga pergunta, Sergio é instado a responder. A fala insistente da fonoaudióloga – por que eu estou aqui? – mobiliza em Sergio o preencher seu turno de interlocução com qualquer resposta. E aí até Bertrand Russel entra na história.

AT : Sergio... por que eu estou aqui?
SERGIO : Eh... isto que você está me perguntando... não /SI/ uma resposta
GT : Eh! 
AT : Você não sabe [por que...
SERGIO :      
os dois [chegarão... mas você tentou refreare alguns escritos 
AT : Não...
SERGIO : Então... eu não estava lá... [se eu estivesse eu saberia
AT :                                       Não... eu [estou aqui... eu estou aqui porque eu sou fonoaudióloga
SERGIO : E qual é o problema?
AT : Não tem ... nenhum problema?
SERGIO : /SI/ 
AT : Eu estou aqui porque você... você tem algum problema na sua fala?
SERGIO : Isto deve ser como todos os outros... não é verdade?... deveria ser um tema muito superior porque abandono... e o abandono de coisas da da da da fauna dupla [arconianos ele está brincando com o brinquedo ... isto é demais...
AT :                                                                                                        [Eu não entendi Sergio
SERGIO : O que eu posso fazer é é procurar e abandonar o cachorro e:::
AT : Abandonar o cachorro? [Mas/
SERGIO :                                   [É
AT : Que cachorro? Você agora está falando de um cachorro? Eu não estou entendendo
SERGIO : 
Este é o este é é é /SI/ um daqueles que trabalharam os mercados...
AT : Não entendi ... Sergio...
SERGIO : Não acredito... eu... eu sei...
AT : Sergio... Sergio... escuta... Sergio?
SERGIO : Sim
AT : Este é o problema... ã? Porque agora você está falando de cachorro e não tem nada a ver com o que eu te perguntei...
SERGIO : É verdade?
AT : Por que eu estou aqui ?
SERGIO : Eu não sei por que... [eu sei também/
AT :                                               [Porque você acha ?
SERGIO :
 Eu só sei que... interessante... que ela sabe exatamente com quem está trabalhando...
AT : Hmm...
SERGIO : Hmm... ou pelo menos para quem ela está trabalhando o assunto e se está trabalhando com uma (SI) que está perto da da da da [escrita
GT :                                          [da... ?
SERGIO : de Bertrand ... Bertrand Russel ... eu não acredito que poderia ser ...
AT : Bertrand Russel ?!? Bertrand Russel ?!?
GT : Agora sim que piorou de vez!
AT : Onde está escrito isso ? Onde?
SERGIO : *Está lá ... está lá*
sergio : *aponta um livro sobre a mesa de centro*
GT : Ele está olhando *lá ...*
gt : *aponta para o livro, rindo* 
AT : Você olhou ... estava escrito no livro e você pôs o nome dele no meio da sua fala!? Eu não entendi ...

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