Como falam os afásicos? – A semiologia das Afasias

Geralmente, é ainda no hospital que se escuta pela primeira vez a palavra afasia. AVC, derrame, hemorragia cerebral, traumatismo, são palavras talvez mais conhecidas, mas afasia? E, além disso, o paciente e seus familiares vão tomar conhecimento, a partir do diagnóstico médico e fonoaudiológico, de que a afasia na verdade são as afasias, com distintos tipos, características diversas e classificação específica: afasia de emissão, afasia de compreensão, afasia motora, afasia fluente, afasia de Broca, afasia de Wernicke, afasia sensorial, etc.

O que isto quer dizer? Como lidar com estas informações? O que é importante saber?

Nesta seção – COMO FALAM OS AFÁSICOS? – SEMIOLOGIA DAS AFASIAS – o objetivo é compartilhar com você – afásico, familiar ou amigo de afásico, estudante ou profissional de saúde interessado em afasia – alguns conhecimentos sobre as afasias, mas principalmente, o que ocorre com a linguagem e a comunicação de uma pessoa que se torna afásica.

Certos conhecimentos – o tipo de afasia, a localização da lesão – são importantes, mas não farão qualquer diferença no momento de interação com a pessoa afásica. Outros conhecimentos – a natureza do problema de linguagem, a alteração de linguagem mais predominante, as estratégias de linguagem usadas pelo afásico para se comunicar – serão fundamentais para enfrentar, interagir e conviver com a afasia e com o afásico.

 AS AFASIAS E OS AFÁSICOS

Existem as afasias e existem os afásicos. Isto significa que um mesmo tipo de afasia pode ter características diferentes para cada pessoa afásica. Significa também que, mesmo quando sabemos que aquela pessoa afásica tem um determinado tipo de afasia, com características bem descritas e definidas, nem sempre isto basta para que possamos conversar ou interagir com esta pessoa afásica. Portanto, saber o tipo e a classificação da afasia, não significa conhecer e entender a linguagem do afásico. Isto porque cada pessoa é única e, embora com o mesmo tipo de lesão cerebral e de afasia, tem experiências de vida distintas em diferentes grupos sociais e tem seu modo próprio de lidar com as dificuldades impostas pela afasia.

Porém, como os diagnósticos médico e fonoaudiológico geralmente tomam por base os tipos de afasias, é importante conhecer e entender algumas noções relacionadas à classificação das afasias.

Tradicionalmente, as afasias são classificadas e organizadas a partir dos problemas de linguagem predominantes ou das características mais marcantes ou com base na localização da lesão no cérebro (geralmente as afasias ocorrem por lesões no hemisfério cerebral esquerdo, quer em destros – pessoas com dominância manual direita –, quer em canhotos – pessoas com dominância manual esquerda).

Desta forma, as afasias são divididas em 2 grandes grupos:

1. Grupo das Afasias de Produção: Afasias Motoras, Anteriores, Não Fluentes, de Expressão ou de Emissão ou de Produção, de Broca, de Condução, Transcortical Motora. Estes nomes ou rótulos indicam que a lesão cerebral é localizada no córtex motor, na porção anterior do cérebro e que a dificuldade predominante é a de produção oral da fala, uma dificuldade motora que leva a não fluência ou a pouca fluência. O nome Broca vem de Paul Broca que, em 1861, na Sociedade de Antropologia de Paris, propôs a terceira circunvolução frontal esquerda do cérebro como a área responsável pela linguagem articulada: ele deu o nome de afemia a esta alteração da capacidade de articular as palavras causada pela lesão nesta área do cérebro – que ficou conhecida como área de Broca. 

                

2. Grupo das Afasias de Compreensão: Afasias Sensoriais, Posteriores, Fluentes, de Compreensão ou de Recepção, de Wernicke, Anômica ou Amnéstica, Transcortical Sensorial: estes nomes ou rótulos indicam que a lesão cerebral é localizada no córtex sensorial, na porção posterior do cérebro e que a dificuldade predominante é a de compreensão da fala. Apesar de fluente, nem sempre a fala do afásico é compreendida pelos interlocutores. O nome Wernicke vem de Carl Wernicke que, em 1874, descreveu um processo patológico envolvendo a primeira circunvolução temporal esquerda do cérebro – a área de Wernicke, que ficou conhecida como a área responsável pela compreensão da linguagem oral.


                

 No grupo das Afasias de Produção (grupo 1), destacam-se a Afasia de Broca, a Afasia de Condução e a Afasia Transcortical Motora. Na Afasia de Broca, a expressão oral está predominantemente comprometida e em diferentes graus, e a compreensão está levemente comprometida, sendo que a linguagem do afásico pode apresentar desde estereotipias, parafasias fonêmicas, agramatismo, redução da linguagem, anomia, automatismos até desintegração fonética e supressão da fala e da escrita.

Na Afasia de Condução, a expressão oral também está predominantemente comprometida e a compreensão está levemente comprometida, ocorrem anomia e parafasias, hesitação e autocorreções. Na escrita, podem ocorrer paragrafias, mas a linguagem escrita apresenta-se melhor do que a linguagem oral. Na Afasia Transcortical Motora também a expressão oral está predominantemente comprometida e a compreensão está levemente comprometida, mas a principal característica é a redução da fala oral e da escrita. Ocorrem parafasias, perseverações e falta de iniciativa para a interlocução.

No grupo das Afasias de Compreensão (grupo 2), destacam-se a Afasia de Wernicke, a Afasia Transcortical Sensorial e a Afasia Anômica ou Amnéstica. Na Afasia de Wernicke, a compreensão está severamente comprometida e a produção pode se caracterizar por jargonafasia. Pode ocorrer ainda anosognosia, parafasias e dificuldades articulatórias. Na Afasia Transcortical Sensorial, a compreensão oral está comprometida de modo moderado ou severo. Na fala pode ocorrer parafasias, anomias e circunlóquios; na escrita, pode ocorrer paragrafias e na leitura oral, algumas paralexias, mas o afásico poderá ter dificuldade para entender um texto apesar de conseguir ler este texto. Na Afasia Anômica ou Amnéstica, a compreensão oral e escrita pode estar levemente comprometida e ocorrem anomias, parafasias e paragrafias.

Na descrição das características dos dois grupos de afasias aparecem vários nomes talvez tão ou mais desconhecidos quanto o nome afasia: anomia, parafasia lexical, estereotipia, parafasia fonêmica, agramatismo, automatismo, perseveração, hesitação, autocorreção, jargonafasia, anosognosia, circunlóquio, paragrafia, paralexia. São as CATEGORIAS SEMIOLÓGICAS DAS AFASIAS, ou seja, o CONJUNTO DE SINTOMAS relacionados às dificuldades de linguagem oral e escrita dos afásicos.

E, novamente, as mesmas questões se colocam:

O que isto quer dizer? Como lidar com estas informações? O que é importante saber?

Conhecer o tipo de afasia e as categorias semiológicas que caracterizam a linguagem de uma pessoa afásica nem sempre permitirá compreender e interagir com o afásico, porque são informações que se limitam às dificuldades de linguagem, revelam apenas o que foi perdido com a afasia, mostram só o que o afásico não consegue mais falar ou escrever.

E o importante não é saber o que o afásico não consegue mais dizer, mas sim o que ele faz para se comunicar, para continuar interagindo com as pessoas e com o mundo apesar da afasia.

Você vai agora conhecer algumas pessoas com afasia. Não se trata de uma situação de testes ou provas de repetição ou nomeação: elas estão conversando com outra pessoa que não é afásica. É assim que a linguagem se mostra, em funcionamento, na interação com outras pessoas. Tente observar o que elas fazem para se comunicar, para se fazer entender apesar da afasia. Este exercício de escuta, de atenção, de empatia talvez permita compreender, interagir e conviver melhor com a pessoa afásica.


Clique nos links abaixo para conhecer alguns afásicos.

» Parafasia lexical: O almoço de Farid
» Estereotipia / Automatismo: O bisneto da dona Diva
» Jargonafasia: Braulio Gonçalves
» Confabulação: A história de Sergio Toscano
» Anomia: As faxineiras de Heloisa

 

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