Linguagem e Afasia

Em Linguagem e Afasia você vai encontrar não apenas informações sobre o que é AFASIA, suas causas, sinais, sintomas e fatores de risco, mas também terá um contato mais próximo com o próprio AFÁSICO, pois nosso objetivo é compartilhar com você a AFASIA do ponto de vista das vivências e experiências dos AFÁSICOS, e do ponto de vista de nosso estudo e conhecimento sobre afasia e linguagem, fruto inegável de nossa longa convivência com AFÁSICOS.

Não é fácil explicar O QUE É AFASIA, nem é simples entender O QUE É AFASIA.

Livros e textos especializados geralmente trazem definições sobre a AFASIA descrevendo causas e sintomas:

“A afasia se caracteriza por alterações de processos linguísticos de significação de origem articulatória e discursiva (nesta incluídos aspectos gramaticais) produzidas por lesão focal adquirida no sistema nervoso central, em zonas responsáveis pela linguagem, podendo ou não se associarem a alterações de outros processos cognitivos. Um sujeito é afásico quando, do ponto de vista linguístico, o funcionamento de sua linguagem prescinde de determinados recursos de produção ou interpretação.” (Coudry, M.I.H. Diário de Narciso: discurso e afasia. Ed. Martins Fontes, 1996, p.05)

“(…) a afasia é uma alteração de linguagem que decorre de lesão cerebral e que pode de diversas maneiras afetar a vida prática de muitas pessoas. Levando em conta o papel crucial que tem a linguagem em todas as atividades e facetas de nossa vida (social, afetiva, ocupacional, mental, etc.), não é difícil imaginar o impacto da afasias nas ações comunicativas, interativas e interpretativas com as quais lidamos cotidianamente e que nos dão identidade pessoal e reconhecimento social. Por derivar de uma lesão cerebral de extensão e gravidade variadas, não é raro que as afasias sejam acompanhadas também de outras dificuldades de origem neurológica, como a paralisia parcial de mãos, braços e pernas ou alterações da atividade gestual. ” 
(Morato, E. M. (org.). Sobre as Afasias e os Afásicos. Ed. Unicamp, 2002, p.10)

“(…) a afasia é uma perturbação da linguagem em que há alteração de mecanismos linguísticos em todos os níveis, tanto do seu aspecto produtivo (relacionado com a produção de fala), quanto interpretativo (relacionado com a compreensão e com o reconhecimento de sentidos), causada por lesão estrutural adquirida no Sistema Nervoso Central, em virtude de acidentes vasculares cerebrais (AVCs), traumatismos crânioencefálicos (TCEs) ou tumores.
“A afasia pode e geralmente é acompanhada por alterações de outros processos cognitivos e sinais neurológicos, como a hemiplegia (paralisia de um dos lados do corpo), a apraxia (distúrbio da gestualidade), a agnosia (distúrbio do reconhecimento), a anosognosia (relacionada à falta de consciência do problema por parte do sujeito cérebro-lesado), dificuldades de deglutição (dificuldade para engolir a saliva e alimentos), etc.” 
(Morato, E. M. (org.). Sobre as Afasias e os Afásicos. Ed. Unicamp, 2002, p.16)

“Afasia grosso modo é como são denominados os problemas de linguagem – oral e/ou escrita – decorrentes de lesões cerebrais causadas especialmente por acidentes vasculares cerebrais (hemorrágicos ou isquêmicos), tumores e traumatismos cranioencefálicos. Na base explicativa para a ocorrência desses acidentes vasculares figuram etiologias variadas e geralmente integradas como a hipertensão, o diabetes, o tabagismo e os problemas cardíacos.
Causada por lesões mais ou menos circunscritas no Sistema Nervoso Central, a afasia compromete a produção e a compreensão da linguagem de indivíduos – em sua imensa maioria, adultos – até então sem histórico de doenças neurológicas ou psiquiátricas. Por derivarem de lesões cerebrais que podem ser mais ou menos extensas, não é incomum que as alterações linguísticas sejam acompanhadas por outras perturbações cognitivas, como apraxias (déficits de movimento) e agnosias (déficits de reconhecimento), bem como, por um elenco variado de sinais neurológicos (como paralisias de face e membros). Todo um conjunto de sintomas secundários, resultado dos impactos psicossociais provocados pelos comprometimentos neurológicos e pelas dificuldades de comunicação, pode acompanhar as afasias: isolamento social, mudança de humor, desinteresse afetivo, depressão.” 
(Morato, E. M. (org.). A Semiologia das Afasias: perspectivas linguísticas. São Paulo: Cortez, 2010, p.12-13)

“A afasia não é uma dessas doenças ‘raras’. Um acidente vascular cerebral, um tumor cerebral, um traumatismo craniano, por exemplo, podem estar na origem de várias manifestações clínicas, algumas da quais se relacionam diretamente à capacidade de comunicação das pessoas, ou seja, à sua linguagem. Dificuldade para compreender a linguagem dos outros, encontrar o nome das coisas, produzir sua própria linguagem, organizar o conjunto dos comandos motores responsáveis pela boa articulação das palavras: esses são alguns dos sinais possíveis desse tipo de comprometimento; é o conjunto de perturbações da linguagem oral e/ou escrita que acompanha uma lesão cerebral que designamos com o termo afasia.” (
Joanette, Y; Lafond, P.; Lecours, A-R. A Afasia do Afásico, in O Afásico – Convivendo com a Lesão Cerebral, 1995, p.03)

« Você certamente algum dia já cruzou numa esquina ou encontrou na padaria uma pessoa com afasia. Talvez por sua maneira de falar você tenha pensado que ela estivesse bêbada ou drogada. Tal confusão é compreensível, pois a afasia é tão pouco conhecida que muitas vezes até os próprios afásicos não sabem que sua dificuldade se chama AFASIA.
A AFASIA é a perda total ou parcial da capacidade de comunicação. Geralmente a AFASIA é acompanhada de paralisia. Às vezes, a AFASIA ocorre devido a traumatismo cranioencefálico (TCE), mas geralmente ela é consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) que afeta o cérebro na chamada área de linguagem » 
(Introdução do filme « Les Mots Perdus »)

Às vezes, pode-se usar analogias, comparações ou metáforas para tentar explicar ou para entender a afasia. A metáfora do turista viajando por um país com uma língua estranha muitas vezes é usada para exemplificar a leigos a situação de comunicação da pessoa com AFASIA. Imagine-se viajando pelo interior da China onde a maioria da população fala mandarim. Você, turista brasileiro falante de português, não conseguirá se comunicar com esses chineses em mandarim, também não compreenderá o que lhe for dito por eles em mandarim.

Será esta uma situação similar à enfrentada pela pessoa com afasia em seu dia a dia?

NÃO! As situações são completamente diferentes. Você na China poderá gesticular, usar sua voz com distintas entonações, apontar, desenhar, dramatizar com seu corpo para se fazer entender. No interior da França, o hóspede usou as mãos, a voz e a vibração da língua imitando o barulho do despertador para fazer entender ao porteiro que gostaria de ser acordado às 6 horas da manhã. O pai – falante de português – que queria comprar uma sapatilha de balé para a filha em uma loja especializada em Nova York, não titubeou para fazer a vendedora compreender que a sapatilha deveria ser rosa: assobiou o tema musical do filme “A Pantera Cor de Rosa”.

Mas a metáfora do turista não serve para a pessoa com AFASIA. Porque o afásico não tem apenas dificuldade com as palavras. Ele também pode ter dificuldade no uso da linguagem gestual, mesmo para responder “sim” ou “não” acenando com a cabeça ou indicando com os dedos da mão. A pessoa com afasia pode ter dificuldade para escrever, para desenhar, para entender a fala, a escrita e mesmo os gestos dos outros, e tudo isso em sua língua materna. Portanto, é muito diferente a dificuldade de comunicação de um turista brasileiro na China e a dificuldade de um afásico em sua própria casa, diante de sua própria família.

Algumas definições discutem a AFASIA confrontando-a com preconceitos linguísticos que são construídos na tentativa de simplificar o que acontece com a linguagem das pessoas afásicas:

“Ainda que em graus variados de severidade, pessoas afásicas em geral hesitam muito para falar, muitas vezes perdem com isso o ‘fio da meada’, mostram alta instabilidade no uso das palavras, trocando de forma inesperada e algo incompreensível umas pelas outras, e têm dificuldades de encontrar aquelas que gostariam de enunciar, mas não são amnésicas; pronunciam de forma laboriosa os sons da fala, repetem partes das palavras ou as distorcem ou suprimem, mas não são gagas ou padecem de deficiências físicas que as impeçam de articular; podem falar de maneira ‘telegráfica’, sem que isso signifique necessariamente que perderam as palavras ou que não mais entendem a complexidade linguística; às vezes seus enunciados parecem desconexos e as pessoas afásicas sentem-se à deriva porque não conseguem estabelecer relações de sentido entre as palavras ou entre as palavras e as coisas do mundo a que se referem, o que dificulta não apenas os processos expressivos da linguagem, mas também os interpretativos (necessários para lermos nas entrelinhas ou captarmos duplos sentidos e subentendidos), mas isso não quer dizer que têm uma deficiência mental.” (MORATO, E. M. As afasias entre o normal e o patológico: da questão (neuro)linguística à questão social, in Silva, F.L; Moura, H.M. (org.). Direito à fala: a questão do preconceito linguístico, 2002, p.65).

A seguinte definição amplia o conceito de AFASIA para além de uma questão simplesmente neurológica, discutindo-a como uma questão social:

“Afetando sobremaneira a linguagem (oral e escrita) e por decorrência todos os processos afeitos a ela (a própria identidade, a afetividade, o papel social), não é difícil imaginar o impacto da afasia sobre a completa vida das pessoas que com ela passam a conviver: o sujeito afásico, seus familiares e amigos, todo o corpo social. É preciso lembrar que não é raro que as afasias, que decorrem de lesão cerebral adquirida por sujeitos até então ‘normais’ do ponto de vista de sua capacidade de usar a linguagem para vários propósitos, sejam acompanhadas por dificuldades físicas importantes, como paralisias (que podem atingir braço, perna, rosto, língua) e demais alterações cognitivas (como uma desorganização da atividade gestual ou da percepção visual).

Após o episódio neurológico, a qualidade de vida do sujeito afásico será proporcional à intensidade do impacto da afasia sobre ele. Naturalmente, a maneira como se lida social e subjetivamente com a afasia condiciona, de certa forma, a sorte dos que com ela convivem. Qualquer que seja o cenário, ele acaba por influenciar fortemente o processo de recuperação da linguagem ou a possibilidade de adaptação ou reinserção sócio-ocupacional de sujeitos afásicos. Nesse caso, a afasia deixa de ser apenas uma questão de saúde, uma questão linguística, uma questão cognitiva. A afasia torna-se uma questão social.” (MORATO, E.M. As afasias entre o normal e o patológico: da questão (neuro)linguística à questão social, in Silva, F.L; Moura, H.M. (org.). Direito à fala: a questão do preconceito linguístico, 2002, p.65-66).

Às vezes é a própria pessoa com afasia quem explica a AFASIA, relatando o que acontece com ela em relação à sua fala e à sua comunicação:

“a gente conhece as palavras. A gente se lembra das palavras… (…) mas não vem… a palavra! Mas conhece” (Tese Ana Lucia Tubero, página 155).

« Difícil de… falar as a… as palavras né ? é… você você você fala depois ou no… é… mamãe papai você consegue » (Filme Les Mots Perdus)

… “porque afásico tem… vários graus de afásico né? Tem vários graus: tem afásico é… é… fica mudo né… é afásico! Fala pouco… é afásico! Fala muito… é afásico também! Mas tem problema de se expressar! Isso que é afásico”. (Tese ALT, 149)

“eu acho que quando eu tive no hospital… o derrame… eu não era assim… eu não falava assim. Hora falo… hora não falo (…) hora… hora… hora tem uma coisa aqui //põe a mão na região da garganta// que me prende. Hora… fico fico rouca. Fico assim (…) eu não era assim. Depois comecei a ficar assim. Eu não sei. E agora o que me… o que… o que me me //põe a mão na região da garganta// incomoda é isto (…) é… às vezes eu quero falar uma coisa e não lembro e daí a pouco lembro! Antes de eu ter derrame… não…” (Tese ALT, 156)

é… é. As //SI// às vezes não consigo falar alguma coisa… a a a a //com sua boca bem aberta e com ressonância gutural// às vezes eu vou falar alguma coisa… às vezes… (…) é… e às vezes eu não lembro um termo…” (Tese ALT, 145)

“a gente num num vê número também… porque eu conheço números… mas eu… a a… (…) a leitura do número… (…) a identificação do número… eu eu não conheço… só que com a maquininha a gente faz o que tem que fazer…” (Tese ALT, 150-151)

“Cor! Cor e… porque tô tô ensinando a ler. As cores a gente procura… porque cores no sinaleiro a gente a gente procura… identificar né. Agora também a minha filha fala fala… “as letras… é essa? É essa?”… mas eu não eu não tenho a certeza de que é! Não tenho a certeza do que é. Não tenho certeza (…) as letras… não… a a a… o o… as coisa… as letras num… a gente não vai… a gente não faz num faz as sibas… síbalas… a gente não faz na cabeça mais não… a gente assim vê o “a”… a gente não sabe o que é… vê o “u”… também… tudo tudo (…) não… frase fra fra frase eu não sei também (…) só cumprimento… só… porque eu cumprimento //olhando para os outros do grupo como se os estivesse cumprimentando// mas… falar não! (…) falo… eu cumprimento… cumprimento a gente fala… mas fala assim… a gente não sabe…” (Tese ALT, 151-152)

E … a mente dele… a mente dele estava normal… porque nós temos a mente normal! … Só mesmo não temos acesso a a a é a gente… a gente… está… ela… afastado… porque… as pessoas não sabem disso… não sabem… não sabem esse problema… que nós temos … acha que nós temos deficiência mentais! O que é deficiência mental? Eu fiquei impressionado porque falar que é deficiência mental! Afasia não é deficiência mental! (Tese ALT, 133-134)

Afásico … Não é demente mental não! Viu? (Tese ALT, 25 e 134)

EF escreve a palavra inteligência no papel e faz gesto de positivo com o polegar: ah! Inteligência! //com entonação de aprovação// (Tese ALT, 137)

O desconhecimento sobre a afasia não é só de leigos, mas também de profissionais da saúde, de funcionários de órgãos e instituições públicas da saúde e também de funcionários de serviços especializados, como podemos observar no relato de Cícero, abaixo (Tese ALT, 166-167):

CI: Eu posso dizer o meu caso. É é eu faço cardiologia não é? Cada três meses eu consulto o cardiológico… é é… cardiologia. E sempre tem um ãã um a sextoanista… e… de plantão né… pra pra atender e eu tenho que contar TODAS VEZ eu tenho que contar TUDO que aconteceu comigo //pontuando a fala//.

Imc: É sempre um diferente?

CI: Sempre. Ele não lê.

Imc: A… não lê o que está lá no prontuário.

CI: Não lê. Pergunta: “O quê que aconteceu?” //Imitando outra voz como se fosse o médico//. Então eu vou explicando pra ele que que é… Ele não sabe o que é afasia… não sabe o que que é a afasia… então… a maioria não sabe.

(…)

Iem: Bom… quer dizer… a afasia… ela ainda é bem desconhecida… mesmo nos serviços especializados. Não só em geral as pessoas leigas não sabem bem o que é… como os serviços especializados também não sabem… não só o que é… mas também não sabem bem como enfrentá-la. É isto?

CI: Estamos falando… estamos falando… a ieniéssi… o ieniéssi (INSS) não sabe o que é afasia. É aposentado por hemiplegia… não na afasia.

CI: Então… o o o oo oo o ministro da da da da Previdência… da Saúde também… falou não sabe o que é afasia.

 Imc: E não sabendo o que é... não sabe lidar com ela.


Para saber mais, leia » Afasia: o que é?

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