Afásicos: A equipe multidisciplinar

A avaliação e a reabilitação dos Afásicos envolvem o diagnóstico e o tratamento com diferentes profissionais da área de Saúde, portanto, com uma equipe multidisciplinar.

Isto porque, as lesões cerebrais decorrentes de AVC – Acidente Vascular Cerebral – ou de TCE – Traumatismo Cranioencefálico – ou de Tumor Cerebral também podem causar alterações motoras, sensoriais e cognitivas, além das alterações linguísticas, como a afasia.

Portanto, além das alterações linguísticas que caracterizam a afasia e que comprometem a capacidade de se expressar e de entender a fala ou a escrita, os afásicos podem ter outras dificuldades que afetam sua autonomia e sua rotina nas atividades cotidianas e nas situações de vida familiar, social e profissional.

O afásico pode ter dificuldade para andar, para movimentar um dos braços (geralmente o direito), para movimentar a mão (geralmente a direita), para dirigir, para se vestir, para tomar banho, escovar os dentes ou pentear os próprios cabelos. O afásico pode ter dificuldades para comer sozinho, levar o garfo à boca, cortar com a faca. Além disso, pode ter dificuldades para mastigar e engolir alimentos sólidos ou líquidos (a dificuldade de deglutição é conhecida como DISFAGIA). O afásico pode ter dificuldades para usar o telefone fixo ou o celular (pode não se lembrar do número do telefone ou ter dificuldade para digitar os números, mesmo com a mão esquerda). O afásico também pode ter dificuldades de cálculo e de reconhecimento de números, o que vai afetar sua capacidade de lidar com dinheiro, pagar contas, usar senhas bancárias e de cartão de crédito, etc. O afásico pode não conseguir reproduzir sua assinatura ou lembrar senhas para uso da internet.

Os profissionais que geralmente participam da avaliação e da reabilitação de afásicos são:

  • Médico: o tratamento médico no caso de AVC, TCE ou Tumores Cerebrais envolve o acompanhamento do quadro neurológico apresentado pelo paciente – diagnóstico, fatores de risco, complicações – e os procedimentos e as orientações necessárias, como a indicação de terapia medicamentosa e/ou de procedimentos cirúrgicos, a realização de exames específicos e de procedimentos cirúrgicos, os encaminhamentos para outros profissionais da área de Saúde, quando necessário. Além disso, o médico atua também na prevenção secundária na tentativa de reduzir o risco de recorrência no caso de AVC. Os profissionais médicos envolvidos no diagnóstico e no tratamento do paciente afásico podem ser o médico neurologista clínico, o médico neurocirurgião, o médico cardiologista, o médico clínico geral, o médico geriatra. Outros profissionais da área médica, como o médico otorrinolaringologista (orelha, nariz e garganta), o médico gastroenterologista (esôfago, estômago e intestino) ou o médico oftalmologista (visão) podem participar do diagnóstico e do tratamento, se o afásico tiver dificuldades de deglutição ou de visão, por exemplo.

O médico radiologista tem papel importante no diagnóstico e na evolução clínica e cirúrgica em exames radiológicos como Tomografia Computadorizada do Crânio (TCC), Ressonância Magnética do Encéfalo (RM), Angiografia Cerebral, SPECT, PET, etc.


  • Fonoaudiólogo: atua na avaliação e na reabilitação de todos os aspectos relacionados à linguagem e aos processos cognitivos:

  • a expressão ou produção oral; a escrita; a compreensão da linguagem oral e também a compreensão da linguagem escrita (leitura);
  • a atenção auditiva e visual;
  • a percepção auditiva e visual; a memória verbal e não verbal;
  • o reconhecimento visual e auditivo (gnosia visual e auditiva);
  • o cálculo;
  • os aspectos multimodais da linguagem como os gestos, a mímica facial, a prosódia ou entonação da fala, os movimentos corporais e da cabeça, o olhar.

O fonoaudiólogo também atua trabalhando a articulação e a voz (nos casos de Disartria e Disfonia), o gesto articulatório (nas alterações da praxia oral), e a deglutição (nos casos de Disfagia) do paciente afásico.

A reabilitação fonoaudiológica visa a reconstrução da linguagem, a utilização de estratégias compensatórias, a reorganização das habilidades de comunicação presentes, apesar da afasia, e dos aspectos relevantes nas atividades de vida de qualquer indivíduo – afásico ou não – para uma melhor comunicação, sociabilização e interação.

  • Fisioterapeuta: atua na avaliação e na reabilitação da mobilidade e do tônus muscular (força) dos membros inferiores e superiores, como pernas, pés, braços e mãos, objetivando a reorganização funcional dos movimentos.

       

O fisioterapeuta avalia e trabalha com a reabilitação da postura corporal, da marcha, dos movimentos de sentar, levantar, andar, vestir-se, alimentar-se, etc., atuando tanto nos problemas motores do paciente afásico (Fisioterapia Motora), como também nas alterações respiratórias (Fisioterapia Respiratória).

O fisioterapeuta busca a prevenção das complicações que a redução ou a falta de movimento de pernas e braços pode causar, como trombose venosa, alterações respiratórias, dor, contraturas, úlceras de pressão. Indica o uso de cadeira de rodas, andador ou bengala para a locomoção do paciente afásico de acordo com suas possibilidades. Indica também o uso de órteses quando necessárias para a adequação do tônus muscular e da postura de membros. Orienta o paciente afásico e sua família em relação aos cuidados e procedimentos que buscam otimizar a mobilidade, a locomoção, a autonomia e a independência do paciente afásico em seu cotidiano.

  • Terapeuta Ocupacional: realiza um trabalho de avaliação e reabilitação da coordenação motora fina para aumentar a independência, segurança e eficiência em atividades do dia a dia do afásico. Atividades como as relacionadas aos cuidados com a higiene pessoal (banho, escovar os dentes, pentear os cabelos), com a alimentação (servir-se, levar o copo à boca, adaptar talheres, cortar com a faca),  com o vestir-se, com o ato de escrever (postura do corpo e da mão hemiplégica, posicionamento do papel, adaptação e preensão de lápis ou caneta, uso do teclado do computador), com o cozinhar (manuseio de alimentos e de objetos, preparo de alimentos), com o uso de computador e de telefone são o foco da Terapia Ocupacional na reabilitação de afásicos. A Terapia Ocupacional busca, portanto, promover a saúde e a participação na vida através do envolvimento na ocupação de autocuidado, de trabalho, de lazer, de descanso e de dormir, de estudo, de brincar e de participação social. Além disso, o terapeuta ocupacional tem conhecimento e habilidade para realizar avaliações de ambientes e a sua adequação considerando as possibilidades da pessoa afásica nos diferentes espaços domiciliares (acessibilidade no lar) e em outros ambientes públicos (acessibilidade em restaurantes, igrejas, clubes, cinemas, parques, aeroportos, etc.).
  • Enfermagem: os profissionais da enfermagem participam de todo o processo de reabilitação do afásico. Durante a internação hospitalar e, dependendo das necessidades do paciente, também após a alta hospitalar, estes profissionais atuam na supervisão e na administração de medicamentos, no controle de parâmetros clínicos do paciente como pressão arterial, temperatura, saturação de oxigênio, glicose, etc. O enfermeiro muitas vezes auxilia o afásico nas atividades diárias, como higiene e cuidados pessoais (banho, escovação de dentes, vestir, uso do banheiro) e alimentação (oferta das refeições por via oral, oferta de alimentação por via alternativa – sonda nasoenteral), posturas (sentar, levantar, deitar), mudanças de decúbito no leito, locomoção, etc. O profissional de enfermagem propõe condutas e segue orientações dos demais profissionais da saúde para a promoção e manutenção da condição clínica do paciente afásico.
  • Psicólogo: atua diretamente com o afásico e também com seus familiares com orientação e psicoterapia, quando necessário, em relação à qualidade de vida da pessoa afásica e de sua família. Uma das condições mais comuns após o AVC é a depressão, principalmente devido às dificuldades funcionais, ocupacionais, cognitivas e sociais que limitam a vida familiar, social, afetiva e profissional do afásico. O psicólogo ajuda o afásico e sua família no entendimento e no enfrentamento das mudanças nos papéis sociais e na dinâmica familiar que a afasia impõe.
  • Nutricionista: avalia a condição metabólica, nutricional e de hidratação do paciente e determina e orienta o tipo e a composição de dieta alimentar específica para o afásico de acordo com suas necessidades: dietas com e sem restrição calórica (hipocalórica e hipercalórica), dietas com pouco sal para quem tem pressão alta ou com pouco açúcar para os diabéticos, dieta com pouca gordura, etc. 

O nutricionista orienta ainda a composição da dieta em casos de pacientes que têm dificuldades de deglutição (Disfagia) e não podem se alimentar por via oral, precisando de alimentação por via alternativa, como sonda nasoenteral ou gastrostomia. O nutricionista pode indicar, se necessário, o uso de suplementos alimentares. O nutricionista e o fonoaudiólogo trabalham conjuntamente com os pacientes disfágicos: o nutricionista, na determinação do tipo e volume da dieta, e o fonoaudiólogo, na determinação da consistência dos alimentos e nas manobras e estratégias durante a oferta.

  • Cuidador: a função de cuidador pode ser desempenhada por um profissional cuidador, mas às vezes é um membro da própria família do afásico quem assume o papel de cuidador. O cuidador participa do processo de reabilitação acompanhando e ajudando o afásico nas atividades do dia a dia – banho, higiene pessoal, vestir, alimentação, medicação, locomoção, lazer, comunicação.

Este profissional deve observar e identificar o que o afásico pode fazer por si, ajudar quando ele necessitar, estimular a conquista de sua autonomia, acompanhar e auxiliar nos cuidados com o afásico apenas nas atividades que ele não consegue realizar sozinho, incentivando o afásico em sua independência.

Não é atribuição do cuidador, nem faz parte de sua rotina de trabalho, a realização de procedimentos técnicos específicos da área de Enfermagem. O cuidador também pode atuar como elo entre o afásico e a família e entre o afásico e os profissionais da saúde, colaborando com suas observações e informações na reabilitação do paciente afásico. O cuidador deve comunicar a equipe de reabilitação sobre mudanças no estado de saúde do afásico, observando e reconhecendo sinais e sintomas de perigo. O cuidador deve ser orientado por cada profissional da área de saúde sobre condutas e atividades que devem ser implementadas, incentivadas ou mesmo evitadas.

GUIA PRÁTICO DO CUIDADOR


  • Outros profissionais: O afásico pode participar de várias outras atividades não necessariamente terapêuticas, como práticas esportivas (natação, hidroginástica, hidroterapia, caminhadas, yoga, relaxamento) e atividades artísticas como aulas de canto, teatro, pintura, dança, cerâmica, desenho, etc., também relevantes na reabilitação e na promoção da saúde e da qualidade de vida do afásico, favorecendo a interação e a participação social do afásico.

A equipe multidisciplinar que participa da reabilitação do afásico deve desenvolver um trabalho conjunto, cooperativo, recíproco e integrado em que as ações, as atividades e os procedimentos otimizem as possibilidades de recuperação e de inclusão do afásico em sua vida familiar, social, escolar e profissional.


Para saber mais, leia » A linguagem do afásico: a interface entre avaliação e reabilitação

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