A linguagem do afásico: a interface entre avaliação e reabilitação

A Afasia tem cura? Esta é uma pergunta frequente feita por vários afásicos e também por seus familiares. Não existe nenhum remédio ou medicamento para o tratamento das afasias. Também não existe nenhum procedimento cirúrgico para as afasias. Mas há melhora. E essa melhora é determinada pela forma como o afásico enfrenta a sua vida com a afasia. Se não há cura do ponto de vista medicamentoso ou cirúrgico, há melhora. E reabilitação.

Há cerca de 20 anos prevalecia a ideia de que uma vez lesionado, o cérebro não seria capaz de se regenerar ou recuperar. Muitas pessoas afásicas não eram sequer encaminhadas para terapia. Além disso, as teses chamadas localizacionistas defendiam a ideia de que o local da lesão cerebral determinava também a localização da função cerebral. Então, se uma lesão em determinado lugar do cérebro causava a dificuldade para evocar palavras, aquele lugar da lesão seria também a área responsável por aquela função da linguagem, estabelecendo uma correlação direta entre lesão e função cerebral. Se a área estava afetada, a função da linguagem também estaria afetada de forma irreversível.

Os anos 90 ficaram conhecidos como a década do cérebro. Inúmeros estudos, diversas pesquisas, um avanço tecnológico fantástico nas chamadas neurociências mudaram a forma de entender e conhecer o cérebro e suas correlações com a linguagem e com a cognição.

A chamada plasticidade neuronal mostrou um cérebro flexível, capaz de se reconstruir e de se reorganizar apesar da lesão cerebral sofrida. Novas sinapses, novos caminhos, “dar a volta por cima”. Mas o cérebro não faz isso sozinho, não, de forma passiva e compassiva. O cérebro só se reconstrói com o uso da linguagem e da cognição. E para isso, é preciso interação.

A reabilitação da afasia não é fácil. Descobrir as dificuldades, encarar as limitações, reinventar um jeito próprio de dizer as coisas e de estar no mundo… Continuar tocando a vida apesar da afasia. Mas ninguém faz isso também sozinho. É preciso estar com outras pessoas, é preciso usar a linguagem e a cognição na interação com as pessoas, os amigos, os conhecidos, os familiares, os colegas de trabalho e de profissão.

E, sobretudo, poder ter junto pessoas com quem contar, disponíveis, generosas, empáticas, incondicionais que, mesmo diante da afasia, consigam construir com o afásico uma nova relação capaz de manter os vínculos existentes e mesmo tecer novos.

Na reabilitação, é fundamental saber, como diz a Bia em seu depoimento, que você não está sozinho nesta viagem.

Depoimento da Bia

A avaliação da linguagem dos afásicos, feita a partir de baterias de testes, geralmente descreve aquilo que o afásico não consegue fazer ou, então, os erros que o afásico comete ao falar: o afásico não consegue nomear; o afásico não consegue repetir; o afásico não consegue entender uma frase apresentada oralmente ou por escrito; o afásico troca a palavra que gostaria de dizer por outra que pode ou não estar relacionada à palavra alvo; o afásico escreve uma palavra que não tem qualquer relação com a palavra que corresponde a uma determinada figura; o afásico persevera nas respostas, respondendo a diferentes perguntas com a mesma palavra; o afásico produz sempre a mesma palavra ou expressão, qualquer que seja a questão colocada etc.

As baterias de testes ou os exames de afasia geralmente são baseados em questões com uma resposta alvo. Isto significa que, se o afásico não produzir exatamente a palavra ou a expressão que o teste propõe como acerto, sua resposta será considerada erro. Portanto, este tipo de avaliação pressupõe acertos e errostudo ou nada: a partir da quantidade de erros, a linguagem do afásico é pontuada e a gravidade da afasia é determinada.

E, muitas vezes, o resultado deste tipo de avaliação determina também o trabalho de reabilitação, que irá se basear exatamente nos erros de linguagem dos afásicos: se o afásico não consegue nomear, por exemplo, trabalha-se a nomeação em tarefas que não tem qualquer relação com a linguagem em uso, podendo começar pelas partes do corpo, pelos meses do ano, por objetos de uso cotidiano etc.

Na contramão desta forma de avaliação que apenas descreve os erros de linguagem dos afásicos usando, geralmente, tarefas descontextualizadas (nomear figuras, repetir palavras, cópia, ditado, completar frases, soletração etc.), a perspectiva sociocognitiva e interacionista aqui adotada propõe que os aspectos sociais, interacionais, cognitivos, culturais e multimodais relacionados à linguagem e demais processos cognitivos são essenciais, relevantes e determinantes na avaliação para conhecer como o afásico mobiliza a linguagem para produzir sentidos, para se comunicar e interagir em seu grupo social, apesar da afasia.

O objetivo da avaliação de linguagem é, portanto, conhecer e compreender os mecanismos e as estratégias dos quais o afásico lança mão para se fazer entender, ou seja, como usa a linguagem oral e escrita, a gestualidade, a expressão facial, a entonação da voz, o direcionamento do olhar,etc. para dar conta da comunicação nas diversas atividades interativas de sua vida cotidiana.

Lembra-se de dona Diva contando sobre seus netos e bisneto? 

Automatismo: O Bisneto da Dona Diva

Se ela fosse avaliada por uma bateria de testes para afasia, provavelmente sua pontuação seria baixíssima, pois ela responderia a quase todas as perguntas com a expressão “Não me dói”.

Dona Diva… qual é o nome disto? – mostrando a figura de uma cama – Não me dói. E disto? – mostrando a figura de um lápis – Não me dói.

No entanto, durante a interação, observa-se que dona Diva usa gestos, escrita no ar, modifica ricamente a prosódia ao produzir “Não me dói” de acordo com o sentido pretendido por ela, canta etc. São todos estes movimentos linguístico-cognitivos que a avaliação deve dar a conhecer.

Assim, para se comunicar, o afásico – como também quem não é afásico – pode fazer uso da linguagem oral e escrita; de gestos indicativos (apontamentos com o dedo indicador) ou de gestos que representam um sentido fixo por convenção social (como, por exemplo, o gesto de “positivo” com o dedo polegar erguido ou o gesto de “dinheiro” com o movimento repetido dos dedos indicador e polegar); de movimentos do corpo, dos braços, das mãos, da cabeça; de expressões faciais; da prosódia (entonação da voz).

Lembra-se do senhor Farid contando sobre o seu almoço? 

Parafasia Lexical: O almoço de Farid

 

Do enunciado SADIA, os gestos do senhor Farid foram determinantes para que pudéssemos evocar salsicha e, finalmente, linguiça, que era o que ele havia comido no almoço, além de macarrão e alcachofra.

É claro que a pessoa que não é afásica pode usar a linguagem oral de forma predominante nas situações de comunicação, mas também gesticula, modifica a entonação da voz, aponta lugares e objetos, movimenta o corpo, faz expressões faciais, etc. concomitantemente ou não com a linguagem oral, para dar conta da significação. O afásico, diante da dificuldade de linguagem que a afasia impõe, precisa necessariamente mobilizar outros recursos além da fala para se comunicar.

Mas como vivemos em uma sociedade logocêntrica onde a linguagem oral – “a fala” – reina absoluta no cotidiano de nossas interações sociais, os recursos e as estratégias não verbais usados pelos afásicos – gestos, olhar, voz – nem sempre são percebidos ou reconhecidos por seus interlocutores (familiares, amigos,etc.) como sendo linguagem (às vezes, no entanto, é o próprio afásico que não aceita senão a fala para se comunicar).

Conhecer os movimentos linguístico-cognitivos que o afásico faz durante a interação e reconhecer esses movimentos como linguagem que permite construir sentidos é o objetivo da avaliação e também da reabilitação. Sim, porque, de nosso ponto de vista, avaliação e reabilitação formam um continuum composto por idas e vindas, por ajustes e negociações de sentido, por trocas e compartilhamento do que se quer dizer e do que é dito e compreendido pelo afásico e seus interlocutores.

Cada afásico – consigo mesmo e diante de interlocutores diferentes – vai lidar com sua afasia de formas variadas. Cada afásico, como também cada familiar ou amigo de afásico, vai compreender a afasia de diferentes modos. Não há padrões, não há receitas, não há o “faça isso” e o “não faça aquilo”. Há os afásicos. Interagindo com diferentes pessoas de acordo com suas singularidades e possibilidades.

A melhor maneira de entender, conhecer e reconhecer os movimentos linguístico-cognitivos acionados pelos afásicos nas situações de comunicação é através de exemplos concretos.

Para isso, vamos compartilhar com você diversas situações de interlocução – registradas em vídeo– que ilustram o trabalho dos afásicos e de seus interlocutores na co-construção da linguagem no Grupo Pauliceia (grupo que integra participantes afásicos e não afásicos sob a coordenação da fonoaudióloga Ana Lucia Tubero).

Preste atenção em tudo o que o afásico faz. Tente reconhecer o sentido de um gesto, de um olhar, da entonação de sua voz. Observe também o que faz o interlocutor. Tenta adivinhar? Aguarda em silêncio? Fala pelo afásico querendo poupá-lo? Faz inferências a partir de toda e qualquer produção do afásico, interagindo com ele?

Interagir com o afásico não é fácil. É preciso enfrentar medos, quebrar preconceitos, ultrapassar barreiras, aceitar e transpor novos paradigmas: “Ele falava sete línguas… agora não consegue nem pedir um copo d’água”.

Para interagir com o afásico é preciso se constituir como interlocutor. Vamos lá, tente. Coloque-se no lugar e no papel do interlocutor diante do afásico. Bom trabalho!

 

LINGUAGEM E AFASIA: GESTOS E ESCRITA NA CONSTRUÇÃO DA SIGNIFICAÇÃO

Este vídeo reúne 3 episódios que ilustram o papel relevante da linguagem gestual e da escrita na construção do sentido e da significação na interação entre afásicos e não afásicos. Em Quantos anos você tem?, Madeira, que é afásico, pergunta a idade de Carlão – também afásico – que responde escrevendo sobre a mesa e depois no papel. Em Cadê o M?, Carlão escreve MED no papel, o que é compreendido por Clay, também afásica, como Carlão informando ao Grupo ter ido ao médico. Mas Carlão aponta para a cadeira vazia ao seu lado, lugar geralmente ocupado por Madeira, redefinindo o referente. E no episódio Barba e Sangue gestos e apontamentos são fundamentais na construção do sentido, mobilizando processos de referenciação (gestos de fazer a barba, apontar para o coração) e de inferenciação (quem tem problemas cardíacos, toma anticoagulantes e quem toma anticoagulantes pode ter sangramentos ao fazer a barba) necessários para que a compreensão se dê.

 


LINGUAGEM E AFASIA: PROSÓDIA E GESTOS NA CONSTRUÇÃO DA SIGNFICAÇÃO

No episódio Minha neta foi viajar!, Orlando – que é afásico – usa o automatismo puta merda para contar uma novidade sobre sua neta. Usando gestos e uma prosódia rica, as produções de Orlando vão sendo investidas de sentido pelos demais participantes que co-constroem a significação na interação.



 

LINGUAGEM E AFASIA: GESTOS E EXPRESSÃO CORPORAL NA CONSTRUÇÃO DA SIGNIFICAÇÃO

No episódio Rema Rema Remador os integrantes do Grupo Pauliceia discutem o texto de uma das notícias de Esportes para o Programa da Rádio XYA-2: A Voz do Pauliceia (saiba mais sobre os projetos do Grupo Pauliceia neste SITE em GRUPO PAULICEIA). O esporte em questão era o Remo, praticado por Orlando – um dos afásicos do Grupo – na juventude. Com gestos e expressão corporal os participantes co-constroem o referente patrão, figura importante na modalidade Remo. Sentidos são negociados, ajustes são feitos, mas a expressão corporal é decisiva na construção da significação.


 


LINGUAGEM E AFASIA: GESTOS NA CONSTRUÇÃO DA SIGNIFICAÇÃO

No episódio Eu fui para Miami!, Cida, que é afásica, apresenta algumas fotos de sua viagem a Miami para os integrantes do Grupo Pauliceia ajudada pela fonoaudióloga Ana Lucia. Seus gestos – amplos, abertos, enfáticos – são fundamentais na construção do relato de sua viagem.

 


LINGUAGEM E AFASIA: OS PROCESSOS MULTIMODAIS NA CONSTRUÇÃO DO REFERENTE

No episódio Das 7 espécies da Terra Sagrada ao… nem isso, nem aquilo. O que é, então? Os participantes do Grupo Pauliceia se mobilizam e conjuntamente tentam construir um referente que é evocado por Ernesto a partir de imagens de um livro trazido de Israel pela fonoaudióloga Ana Lucia. Ernesto descreve com gestos a fruta ou legume que não consegue nomear. Dá características como cor, sabor. Pega seu telefone celular por 2 vezes para consultar sua esposa, pois refere que na véspera havia comido a tal fruta ou legume. O gesto de Ernesto de como se come tal alimento é decisivo na determinação conjunta do referente.

 


LINGUAGEM E AFASIA: LINGUAGEM, COGNIÇÃO E INTERAÇÃO

Este vídeo apresenta 3 episódios que exemplificam o trabalho linguístico-cognitivo realizado pelos afásicos em interação. No episódio Quantos anos?, aparecem os sentidos pretendidos, literais, ambíguos, subentendidos, construídos. No episódio Abrindo o coração, o título de um livro de piadas escrito por Ernesto é traduzido por gestos no sentido literal de uma cirurgia cardíaca sofrida por ele. E no episódio Eu voltei!, a fonoaudióloga Ana Lucia provoca Ernesto para que relate ao Grupo a retomada de uma dada atividade. Ele evoca uma atividade diferente daquela pretendida por Ana Lucia (de fato, Ernesto voltou a fazer caixas a partir de materiais descartados, de partes de objetos que ele refere como lixo). O Grupo se mobiliza na construção do referente relacionado à nova atividade de Ernesto.

 


LINGUAGEM E AFASIA: PRÁTICAS DE LINGUAGEM E HUMOR

Os 3 episódios reunidos neste vídeo mostram os integrantes do Grupo Pauliceia em atividades de linguagem que tem como foco o humor. No episódio Gula, todos se mobilizam para descrever para Cleide a cena de um homem gordo amarrado diante de um peru, imagem que é projetada numa tela posicionada às costas de Cleide, única que não pode visualizar a imagem. No episódio Barbeiragem, os participantes do grupo Pauliceia fazem comentários acerca de uma imagem projetada numa tela que exige inferências para ser compreendida. Ao mesmo tempo, subentendidos e preconstruídos são mobilizados. No episódio Churrasco, Heloisa descreve com gestos, prosódia, dramatização uma figura que vários afásicos têm dificuldade para entender. O inusitado da figura e do trabalho de Heloisa na construção da significação produzem risos. O Humor como prática de linguagem é fundamental no trabalho de linguagem com afásicos.

 


LINGUAGEM E AFASIA: PRÁTICAS DE LINGUAGEM E CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS

Neste vídeo, 4 episódios ilustram o trabalho dos afásicos no Grupo Pauliceia na atividade de criar falas a partir de imagens representando situações variadas. No episódio Fala! Fala!, a fala proposta por Ernesto tem contraponto na fala proposta por Bia: Eu peguei sim sua namorada!. No episódio Que cheiro! Que sujeira! Que nojo!, gestos e prosódia constroem a fala para a mulher diante do vaso sanitário.No episódio Que cabelo! as opiniões divergem sobre a incidência das falas: o cabelo da mulher ou o telefonema. O episódio Eu queria sorvete! mobiliza processos relacionados à expressão facial, a preconstruídos e à memória discursiva necessários para criar a fala de uma criança diante de um prato de salada.


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